segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Epifania de Dona Menina






Epifania de Dona Menina
 




– Dona Menina!

– ...

– Dona Menina!

– Oi, quem me chama?

– Aqui, Dona Menina, sou eu.

– Eu, quem? Não há mais viva alma aqui!

– Ah, Senhora Dona Menina, viva até que não, mas você me chama tantas vezes e, quando respondo ao seu chamado, não acredita que possa ser verdade?

– Minha santinha! Devo estar desvairando! ou então deixei de vez os meus amores!

– Que drama! Só porque eu vim pessoalmente para uma conversinha íntima?

– Tô abobalhada! Num acredito nos meus olhos: quedar assim defronte a minha Santa Virgem envolvida nesta luz de paz!

– Na Luz dos meus olhos lhe trago a minha bênção.

– Seus olhos! são dois brilhantes vivos que encegam os meus!

– Mas o que há para fazê-la sentir-se assim tão agitada?

– É que a Senhora há de concordar com esta pobre vivente, não é de comum receber uma visita assim majestática. Estou deveras atarantada. Deixe-me tempo para resgatar o fôlego e dirimir o meu deslumbramento!

– Fique à vontade, Dona Menina, e vamos parar com isso de Senhora, somos velhas conhecidas e não precisamos de cerimônias.

– Mas eu, pobrezinha de mim, não me dou o atrevimento de um trato assim de vivência íntima.

– E quem é que sempre falou comigo assim como se eu fosse uma sua filha, sem cerimônia nenhuma?

– Ara, mas assim de frente, fico até avexada de alembrar da minha falta de liturgia.

– Qual! Gosto muito desse seu jeito, como você diz: atarantado e sem pompa, de falar comigo. Também sou uma simples mãe como você, de família humilde, e com os muito afazeres de uma dona de casa.

– Nem posso pôr na cachola a estampa da Senhora a faxinar uma casa, imagine! Com tanto atarefamento para cuidar do mundo!

– Ah, Dona Menina, fico muito triste com o pouco que consigo nas minhas tarefas de aliviar o sofrimento do mundo.

– Uai, a Senhora dá tanto alívio pra nós!

– Mas são tão poucos os nós. As pessoas só sabem pedir, pedir e pedir. Acham que tudo pode ser consertado assim com um pequeno propósito meu ou do meu filho.

– Deveras, Senhora! Acho que são vícios aparecidos das lendas de fadas, sabe como é, né? Varinhas que se agitam com um tremelique e zás!

– Zás!?

– Ou lâmpadas mágicas que num esfregão, zás! e aparece um gênio para cumprir todas as veleidades.

– Ou mesmo deusas antigas que se misturavam nos afazeres terrenos com flechas e raios.

– Pois! É uma pedição danada! E não conseguem tirar a trava do olho, né?

– E pedem de tudo para satisfazer as vontades deles.

– É bem assim mesmo, mais fácil que dobrar as vontades é dobrar os joelhos.

– E quando se levantam, Dona Menina, tudo volta ao que era: as mesmas convicções, os mesmos preconceitos.

– E com o eu enfatuado destilando empáfia de serem as mais corretas gentes do mundo.

– Tenho um pesar tão grande, Dona Menina, meu filho repetiu tantas vezes sobre o caminho a seguir.

– E bulhufas ficou aprendido, né? E seguem a achar que num é possível nascer outra vez, que barriga de mãe não suporta carregar tal peso.

– Como se o anjo não tivesse vindo anunciar-me a beleza do nascimento da criança de luz!

– Ah! Que bom a Senhora falar nessa ocorrência que tenho entranhada aqui dentro como um quadro pintado de belo, sou um mar de bisbilhotice pra saber se o susto foi grande.

– Susto, Dona Menina?

– Pois antão, num foi um baita susto quando aquele anjão bonito demais apareceu assim no improviso?

– Ara, Dona Menina!... Olha que já estou até pegando os seus modos!

– Está bem, num tá mais aqui quem ousou indagar... Mas, voltando aos pidões...

– Então, e tem uns, que desplante!, que ainda dão graças por terem conseguido surrupiar tesouros conseguidos em trapaças e falcatruas, tomando dos mais infelizes a parte pouca que lhes caberiam.

– Ave Maria!

– Hem?

– Desculpe, Senhora, é a impudência de um mau de praxe.

– Ara, não é nada, para que preocupação com coisinhas inconsequentes enquanto tanta maldade reina por aí?

– Senhora, que fazer pra nossa terrinha ter mais distinção nas gentes de poder?

– Senhora Dona Menina, que tristeza nos dá tão grande desprezo pelo benefício alheio, tanta voracidade sem fim.

– É de muita tristeza, Minha Santinha, e não há deveras nada a fazer para dirimir a ganância desmesurada?

– Nosso trabalho só pode ser feito na consciência dos humildes, mas quando ela está toda ocupada pela concupiscência, não há lugar que nossa voz possa tomar.

– Mas o povo é sofrido de tanta precisão, Senhora!

– Humildade não quer dizer pobreza material, Dona Menina, e gente que não deixa oportunidade para satisfazer sua cobiça não tem percepção nenhuma do que ela seja.

– Ah, sim! Na hora de agir para obter o merecimento a atuação é apoucada, bem sei. Qualquer vantagenzinha vale a malfeitoria!

– E assim se vai construindo uma gente sem freios!

– Mas ficamos tão atormentados por tudo que sucede nesta terrinha!

– Imagine a nossa desolação, Dona Menina!

– E num seria, talvez... possível... um milagrezinho para reverter o imbróglio em que nos embarafustamos?

– A tarefa é inglória, Dona Menina, se juntarmos todos os santos, e olhe que digo todos, não só os católicos, ainda assim não se daria conta de tanto desmazelo com a justiça... e a educação dessa gente.

– Educação! Eu, na minha despropositada insapiência, não posso entender como os mestres, que devem erigir a ciência das gentes, sejam espezinhados e menosprezados!

– Um processo muito antigo de erros, uma bem arquitetada armadilha de nosso grande inimigo.

– À vez eu sinto a estada do dito chifrudo bem plantada em nosso firmamento de estrelas de pano, com o escárnio daquela faixa branca a fazer chiste...

– Estou sendo chamada, Dona Menina, urge que me vá! perigo próximo... até...

– Virge! Por que se vai?

– ...

– Minha santinha! que luzeiro de fogo é este que irrompe agora?

– Ha, ha, ha!

– Ajude-me, Senhora, não posso crer nesta desalmada visão!

– Ha, ha, ha! Pode crer, bruxa asquerosa!

– Meu Jesus Cristinho, valha-me agora!

– Aha! de que adianta agora gritar por ajuda, este é meu território.

– Não aqui na minha casa, cá dentro não há pouso para teus cornos.

– É meu o governo desta terra, aqui ganhei o direito de plantar a minha Igreja!

– Igreja? E desde quando Nosso Senhor te permitiu alçar uma Igreja?

– Não preciso da permissão dele, a gente desta terra me tornou soberano.

– Oh, meu Senhor, minha Santa Mãezinha, socorro! Livrem-me deste pesadelo!

– Ha, ha, ha! Bruxa! De que valem agora as suas preces? Já espalhei minha lei por muitas casas com dissimuladas arapucas de agarrar os gananciosos que pagam para obter favores meus!

– Não é possível!

– Ah, não? E não é sua a voz que sempre diz que esses pastores são orientados do diabo? Qual é então a sua dúvida? Achava que era apenas um desabafo que fazia? Lembra das palavras dele? - "Se um cego conduz outro cego, ambos cairão no abismo".

– Isto não pode estar sucedendo!

– E não foi você que disse que precisava desinfetar o país com creolina? Nem toda a creolina do mundo poderá limpar a mente desses senhores que aqui instalei.

– Eu rezo, rezo para que esta assombração horrível desapareça!

– Ha, ha, ha! Reze, reze, de que adiantam palavras ante o meu poder de persuasão sobre essa gente egoísta? Minhas insídias são como vírus que infestam as mentes ávidas.

– Proteja-me, Senhora!

– São minhas esta terra e toda a gente que rasteja sobre ela. Acumulei uma riqueza enorme contaminando as cabeças desta gentinha que se vende por um troquinho qualquer. Povo cordial! ha, ha, ha! povo tonto, repleto de ganâncias. Destruí aquela gente selvagem que cultuava as florestas e os rios com esta gentinha ávida por uma pedrinha qualquer. Terra de Santa Cruz, ha, ha, ha! A madeira da cruz era vermelha do brasil e me foi vendida para tingir a minha capa! Vermelha, bem vermelha! Minha insígnia cravada aqui desde seu batismo derradeiro: Brasil! Minha injustiça foi a arma que selou minhas conquistas, são meus os juízes corrompidos que impõem a minha Lei. Nunca serão uma nação, pois nunca terão uma Justiça! Aqui é o meu terreiro.

– Não, não é possível!

– Ha, ha, ha! E agora, bruxa, é sua hora! ajoelhe-se ante o seu novo Senhor!

...

– Vovó!

– ...

– Vovó!

– Ah, Mariinha, ah, filhinha, dê-me um aperto bem forte aqui, ah, que bom!

– Que foi, vovó? Você está tremendo.

– Você nem imagina o bom que é ver os seus olhos inocentes!

– Ai, vovó, você está me apertando muito forte!