quinta-feira, 29 de junho de 2017

Sonho de uma noite de...





Esta história apropria-se de personagens criados por Shakespeare em “Sonho de uma noite de verão”, o texto dessa bela peça pode ser obtido em http://livros01.livrosgratis.com.br/cv000090.pdf.


 A história é uma obra de ficção, qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas, ou mesmo lugares, não terá sido mera coincidência, antes seria mais uma traquinagem perpetrada por Puck.




Sonho de uma noite de...



outono



Sob os auspícios de Oberon, os três casais deram curso aos filhos e rebentos da mais nobre estirpe de Atenas. Titânia, autonomeada madrinha de toda a prole, e seu séquito velavam pelo bom sono das crianças, permitindo-lhes crescer em beleza, isentas dos males do mundo como o mago lhes assegurara. Nas sombras caladas das noites, quando a lua crescente lançava os seus raios, os elfos brincavam invisíveis em roda das casas, transformando a luz da lua em eflúvios de bem para os pequenos.


Puck andava entediado com aquela quieta vida; a falta das brincadeiras divertidas, que eram a razão de sua alegria, fazia-lhe impaciente, principalmente depois daquelas confusões que o diabinho adorara ter feito nos bosques com os casais apaixonados. Aquele marasmo fazia-lhe sentir falta da diversão que se proporcionara. Vendo crescer em amizade os três jovens, que agora tinha em sua teia, não resistiu à tentação.


Fedra era a filha de Helena, trazia recato nas belas faces que eram coloridas de lábios finos; que se abriam em sorrisos, um tanto tímidos, capazes de deter o carro de Febo no meio do céu para desfrutar das ondas acariciantes daquele ar de vestal. Sem a voluptuosidade no corpo, tinha-o leve, como menina em floração que era.


Tisbe era filha de Hérmia, cabelos morenos que lhe desciam pelas costas, magra a fazer inveja a uma garça, de ares resolutos e de vontade imperiosa, fazia-se presente por disputar as atenções. Trazia nas faces finas o frescor da juventude voluntariosa que mostra o que quer e destrói os acidentes que lhe tentam opor-se.


Nascidas na mesma estação, as duas, versões femininas de Castor e Pólux, cresceram dividindo as suas brincadeiras, o aprendizado e a amizade. Tornaram-se amigas inseparáveis, duas obras vivas dos artífices pais da nobreza ateniense, filhos dos deuses. Por onde fossem, eram sempre juntas. Quando as meninas foram deixando-se vencer pela puberdade, a presença de Iannis passou a ser notada, e mais que notada, desejada. Iannis era filho de Teseu, Duque de Atenas, rapaz em treino no exercício das armas, bem como nas artes e nas letras.


Esse quadro de amores incipientes e amizade ferrenha despertou em Puck uma crescente sede de prazer e de uma boa dose de diversão. E com alegria renovada, com o frasco de suco de amor ardente, dançava ao som brejeiro do seu próprio canto: 


“sou o vagabundo noturno,

que brinquedo faço de tudo”,

o papel faço de carrasco

com o suco deste meu frasco:

o primeiro olhar apaixona

e amor demente proporciona.



E Puck tecia seu plano. Pegar os três juntos seria fácil, por ser já costumeiro. Mais fácil ainda derramar no olho de Fedra o elixir do amor ardente; teria apenas que cuidar para que Iannis fosse o primeiro que ao acordar ela pudesse olhar. O danado bem sabia que Tisbe já havia recebido uma flecha do menino endiabrado que saía a distribuir paixão. Desde que causara a enorme trapalhada de despejar o sumo em olhos errados, Puck tornara-se mais cuidadoso, e, pensava ele consigo, mais sábio na prudência. Assim, agindo como vento nos ouvidos de Tisbe, afastou-a, induzindo-a a buscar um refresco para os três. A Fedra, que já estava deitada indolente, bem como a Iannis, ao seu lado esparramado, lançou um perfume no ar que os levou ao torpor e a adormecer.



Vendo os dois ao seu inteiro intento, o diabinho exultou. Derramando o malévolo suco nos olhos de Fedra, correu a provocar um galgo que dormia ali ao lado. O cão, ao acordar assustado, partiu atrás do espírito endiabrado com fortíssimos latidos, acordando o casal entorpecido.



O olhar de Fedra caído em Iannis fez-se como o primeiro raio de sol iluminando a manhã. Ela jogou-se em seus braços, derramando-se em paixão.



– Iannis, luz dos meus olhos, não sei se meu coração andava ofuscado, pois te via sem te conhecer. Agora, irrompe nele a razão, que me diz o quanto estava inconsciente longe dos teus braços. Abraça-me forte, sufoca-me nos teus doces sorrisos de um beijo.



– O que te aconteceu, Freda, para mudares assim o teu comportamento?



– A maravilha de ter abertos os olhos que só querem parar a contemplar este teu rosto de Adônis.



– Terá o sangue jorrado da ferida de Afrodite tingido a tua mente de vermelho, antes tão branca e casta?



Nesse desvario do amor de Fedra abraçada a Iannis, Tisbe retornando, encontrou-os. A cólera não lhe feriu com parcimônia. O pesado jarro que trazia na mão atirou-o brutalmente contra a amiga, maltratando-lhe a fronte.



Exangue nos braços de Iannis, Fedra não teve tempo de exalar um suspiro. Iannis, ainda sem entender, segurava-lhe o corpo, que pendera nos seus braços, sem vida. Olhou atônito para Tisbe, que pálida levantou freneticamente as mãos cobrindo o rosto ao entender o horror do seu tresloucado gesto. Iannis somente viu a menina desaparecer além da sebe que cobria o jardim. Depositou o corpo de Fedra no chão e quedou-se em lágrimas sobre o corpo da amiga.



Quando Puck deu-se conta que sua brincadeira desencadeara uma tragédia, quis esconder-se, mas desesperado lembrou-se que seu mestre poderia encontrá-lo pelas vibrações do seu corpo diáfano, e apenas alguns minutos depois contemplou a face dura de Oberon.



– Desta vez foste longe demais, Robim, Tisbe também já se encontra no mundo das trevas, pois levada pelo desespero jogou-se em um abismo. Não deverias deixar tal tragédia acontecer. Pobres espíritos das duas jovens infelizes, viverão longas jornadas para dirimir os ódios gerados; deverás acompanhá-las e velar para que seus caminhos sejam os mais leves possíveis.



Titânia, a rainha das fadas, consternada pelo desfecho brutal que levou a vida de suas duas afilhadas, abriu para os espíritos das jovens uma janela de esperança:



– Somente a generosidade e a abnegação de um ato de elevado altruísmo de uma para com a outra poderá resgatá-las para uma vida onde será o amor o descanso das fadigas diárias. Que possam ser sábias para realizar o gesto de abandono que abreviará suas penas.



Não nos esqueçamos do pobre Iannis, que sofreu duramente a perda das amigas, ganhando uma couraça de sentimentos duros que o levou a heroicas batalhas até que perdeu a vida lutando.





Inverno



Puck estava cansado. Vagara muitos séculos acompanhando a saga daqueles três, ajudando-os a caminhar para a harmonia. Finalmente ele achava que poderia, enfim, descansar e voltar para o reino das fadas. 


Em uma pequena cidade no interior, poucos meses separando o nascimento de cada um, três bebês veem a luz em três famílias diferentes. Iannis precede os outros dois. Enquanto as crianças crescem, Puck limita-se a acompanhá-las e fazer pequenas brincadeiras com suas protegidas. Iannis ficava particularmente irritado com fios emaranhados, objetos que iam ao chão, tropeços pelas calçadas, enquanto Puck ria de seu afilhado atrapalhado.


As duas meninas, nascidas em casas gêmeas, tornaram-se amigas dedicadas. Iannis nascera delas distante e só veio a conhecê-las após a puberdade. E Puck estava feliz em provocá-los nessas idades em que o amor tinge os corações de matizes variadas de sonhos, dores e alegrias.


Iannis tinha sua turminha de amigos leais que fazia aos domingos o footing pela Rua Direita, enquanto as duas amigas, invariavelmente juntas também passeavam após a sessão de cinema das seis da tarde. Na primeira vez que Iannis percebeu a presença da beleza das duas amigas, fora Puck que insuflara Heitor, um dos quatro marotos:


– Quer ver como ela fica brava? – Heitor falou para os amigos, e chegando-se mais perto das duas que iam pouco à frente – Ei, gatinha linda, quer namorar comigo?


A reação de Tisbe era voltar-se e chamá-lo de idiota e outros adjetivos nada lisonjeiros, enquanto Fedra fazia-se surda e admoestava a amiga para não dar bola. Puck adorava ver aqueles desencontros e insuflava os meninos a brincar com elas a cada vez que se esbarravam, que eram muitas naquele subir e descer contínuo pela rua. Aos poucos, Iannis começou a sentir um vazio crescente quando as duas sumiam da rua devido ao adiantado das horas.


E Puck continuava a brincar e a soprar nos ouvidos dos três afilhados um pouco de malícia. Certa vez em que Iannis não estava com seus amigos costumeiros, voltando para casa, as duas estavam em seus calcanhares, e Tisbe inverteu a brincadeira, assoviando e chamando-o de gatinho. Iannis encolheu-se em sua timidez e sentiu apenas certa infelicidade por não ser Fedra quem brincava com ele. 


Os meses iam desenrolando-se e aquelas brincadeiras iam fazendo-se rotineiras. Na porta diária do colégio, enquanto aguardavam a chamada para o início das aulas, os olhos inquietos de meninos e meninas se procuravam. Iannis só tinha olhos para Fedra e sentia os dela sobre ele; queimaduras que se faziam profundas dia após dia.


E Puck exultava. Conseguira seu grande feito de confusão, mas agora sabia ele que esta seria a última jornada antes de seu regresso para casa. Tisbe amava Iannis, Iannis amava Fedra, e Fedra?


Iannis tinha uma tarefa que o fazia passar diariamente pela loja do pai de Fedra, e, muitas vezes, ela lá se encontrava atrás do balcão. Ele deixava-se ficar a conversar com ela, passeando os olhos por aquele rosto que lhe fazia sonhar com o passado desconhecido e com o futuro de sonhos. Puck acompanhava o enleio com atenção e esperança, até que Iannis falou a Fedra de seu amor e de seu sonho de poder torná-la sua namorada.


– Eu não posso te namorar, pois, se o fizer, Tisbe vai brigar comigo. Eu não posso fazer isto com ela, crescemos juntas, ela é como uma irmã para mim.


Enquanto Puck pulava tontamente de felicidade, naquela noite o choro correu livre e escondido pela escuridão solitária em duas camas. Só houve tristezas, nenhum rancor, e continuaram sendo amigos. Três vidas marcadas por aqueles anos inocentes pela grande generosidade de Fedra, que libertou Puck para voltar ao seu mundo.




Primavera




Puck foi recebido com alegria pelos elfos irmãos, e a Rainha das Fadas pediu a ele apenas que vez em quando olhasse por aqueles três. E ele o fazia, continuando a provocá-los apenas com suas pequenas brincadeiras.


Os anos passaram. Iannis tinha ido para terras estranhas. Muitos anos. Um dia Fedra recebe uma carta, sem o remetente declarado, e na carta pôde ler apenas este poema:



quando eu vivia no jardim do éden



tinha eu quinze anos perpétuos

andando por vales e fontes

morando no jardim do éden



de uma noite de sono agitada

acordei no lado trazendo

uma dor de coração rachado



dois sóis nos olhos brilhavam-me

espelhos da minha carne

tão perto dos meus sorriam-me



tomou-me as mãos trementes

murmurou em alvos dentes:  vem

aos pés da árvore levou-me



mostrou-me um caqui pendente

vermelho tinha a cor de pecado

pulsando a explodir de amor



a serpente ao lado enrolada

um chocalho de aviso rilhou

não a queiras fazer-se senhor



tudo o mais não foi interdito

outros sóis os dias faziam

outras luas noites faziam



outras frutas faziam sabor

era rei de reino tão vasto

de vasta solidão era senhor



no meio do jardim jazia

na árvore do sumo do amor

dois olhos que luz sabiam



no espelho dos dias passados

fizeram em uma eternidade

os raios de luz condensados



pendente o caqui preservou

os sóis que não se apagaram

o amor que não se entregou



tenho eu quinze anos infindos

fitando um caqui pendurado

de cento e vinte anos perfumado



Puck presenciou o momento em que Fedra, lendo o poema, voltou a chorar. Era-lhe proibido, mas ele queria dizer-lhe que aquele choro não era necessário. Quando ela caiu no sono, fazendo uma última arte, mostrou-lhe em sonho um futuro não muito longe, deixando-lhe a ventura de saber que viverá um sonho de uma noite de...



verão



– amore mio, ho aspettato tanti anni per dirti...

– cosa?

- tu sei lucida

- ahn?                                                         i        d          a     
                                                         c          i        d           a
                                                    u      c          i        d           a 
                                              a       u      c         i        d           a
                                        d        l      u       c        l        d           a
                                    i      a       l      u       c        i         d          a
                 sei          c     d     a      l      u       c        i         d          a
            tu             u     i    d     a      l      u       c        i         d          a
- cioè                 l  u  c   i    d    a     l      u       c        i         d          a
            tu             u     i    d     a      l      u       c        i         d          a
                  sei         c     d    a        l      u       c        i         d          a
                                   i       a        l      u       c        i         d           a       
                                       d         l      u       c         i         d           a      
                                               a      u      c         i         d           a
                                                     u      c         i         d           a 
                                                          c         i         d           a
                                                                   i        d          a