Esta história apropria-se de personagens criados por
Shakespeare em “Sonho de uma noite de verão”, o texto dessa bela peça pode ser
obtido em http://livros01.livrosgratis.com.br/cv000090.pdf.
A história é uma
obra de ficção, qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas, ou mesmo lugares,
não terá sido mera coincidência, antes seria mais uma traquinagem perpetrada
por Puck.
Sonho
de uma noite de...
outono
Sob os auspícios de Oberon, os três casais deram curso aos
filhos e rebentos da mais nobre estirpe de Atenas. Titânia, autonomeada
madrinha de toda a prole, e seu séquito velavam pelo bom sono das crianças,
permitindo-lhes crescer em beleza, isentas dos males do mundo como o mago lhes
assegurara. Nas sombras caladas das noites, quando a lua crescente lançava os
seus raios, os elfos brincavam invisíveis em roda das casas, transformando a
luz da lua em eflúvios de bem para os pequenos.
Puck andava entediado com aquela quieta vida; a falta das
brincadeiras divertidas, que eram a razão de sua alegria, fazia-lhe impaciente,
principalmente depois daquelas confusões que o diabinho adorara ter feito nos
bosques com os casais apaixonados. Aquele marasmo fazia-lhe sentir falta da
diversão que se proporcionara. Vendo crescer em amizade os três jovens, que
agora tinha em sua teia, não resistiu à tentação.
Fedra era a filha de Helena, trazia recato nas belas faces
que eram coloridas de lábios finos; que se abriam em sorrisos, um tanto
tímidos, capazes de deter o carro de Febo no meio do céu para desfrutar das
ondas acariciantes daquele ar de vestal. Sem a voluptuosidade no corpo, tinha-o
leve, como menina em floração que era.
Tisbe era filha de Hérmia, cabelos morenos que lhe desciam
pelas costas, magra a fazer inveja a uma garça, de ares resolutos e de vontade
imperiosa, fazia-se presente por disputar as atenções. Trazia nas faces finas o
frescor da juventude voluntariosa que mostra o que quer e destrói os acidentes
que lhe tentam opor-se.
Nascidas na mesma estação, as duas, versões femininas de
Castor e Pólux, cresceram dividindo as suas brincadeiras, o aprendizado e a
amizade. Tornaram-se amigas inseparáveis, duas obras vivas dos artífices pais
da nobreza ateniense, filhos dos deuses. Por onde fossem, eram sempre juntas.
Quando as meninas foram deixando-se vencer pela puberdade, a presença de Iannis
passou a ser notada, e mais que notada, desejada. Iannis era filho de Teseu,
Duque de Atenas, rapaz em treino no exercício das armas, bem como nas artes e
nas letras.
Esse quadro de amores incipientes e amizade ferrenha despertou
em Puck uma crescente sede de prazer e de uma boa dose de diversão. E com alegria
renovada, com o frasco de suco de amor ardente, dançava ao som brejeiro do seu
próprio canto:
“sou o vagabundo noturno,
que brinquedo faço de tudo”,
o
papel faço de carrasco
com o
suco deste meu frasco:
o
primeiro olhar apaixona
e amor
demente proporciona.
E Puck
tecia seu plano. Pegar os três juntos seria fácil, por ser já costumeiro. Mais fácil
ainda derramar no olho de Fedra o elixir do amor ardente; teria apenas que
cuidar para que Iannis fosse o primeiro que ao acordar ela pudesse olhar. O
danado bem sabia que Tisbe já havia recebido uma flecha do menino endiabrado
que saía a distribuir paixão. Desde que causara a enorme trapalhada de despejar
o sumo em olhos errados, Puck tornara-se mais cuidadoso, e, pensava ele
consigo, mais sábio na prudência. Assim, agindo como vento nos ouvidos de
Tisbe, afastou-a, induzindo-a a buscar um refresco para os três. A Fedra, que
já estava deitada indolente, bem como a Iannis, ao seu lado esparramado, lançou
um perfume no ar que os levou ao torpor e a adormecer.
Vendo
os dois ao seu inteiro intento, o diabinho exultou. Derramando o malévolo suco
nos olhos de Fedra, correu a provocar um galgo que dormia ali ao lado. O cão, ao
acordar assustado, partiu atrás do espírito endiabrado com fortíssimos latidos,
acordando o casal entorpecido.
O
olhar de Fedra caído em Iannis fez-se como o primeiro raio de sol iluminando a
manhã. Ela jogou-se em seus braços, derramando-se em paixão.
–
Iannis, luz dos meus olhos, não sei se meu coração andava ofuscado, pois te via
sem te conhecer. Agora, irrompe nele a razão, que me diz o quanto estava inconsciente
longe dos teus braços. Abraça-me forte, sufoca-me nos teus doces sorrisos de um
beijo.
– O
que te aconteceu, Freda, para mudares assim o teu comportamento?
– A
maravilha de ter abertos os olhos que só querem parar a contemplar este teu
rosto de Adônis.
– Terá
o sangue jorrado da ferida de Afrodite tingido a tua mente de vermelho, antes
tão branca e casta?
Nesse
desvario do amor de Fedra abraçada a Iannis, Tisbe retornando, encontrou-os. A
cólera não lhe feriu com parcimônia. O pesado jarro que trazia na mão atirou-o
brutalmente contra a amiga, maltratando-lhe a fronte.
Exangue
nos braços de Iannis, Fedra não teve tempo de exalar um suspiro. Iannis, ainda
sem entender, segurava-lhe o corpo, que pendera nos seus braços, sem vida. Olhou
atônito para Tisbe, que pálida levantou freneticamente as mãos cobrindo o rosto
ao entender o horror do seu tresloucado gesto. Iannis somente viu a menina
desaparecer além da sebe que cobria o jardim. Depositou o corpo de Fedra no
chão e quedou-se em lágrimas sobre o corpo da amiga.
Quando
Puck deu-se conta que sua brincadeira desencadeara uma tragédia, quis esconder-se, mas desesperado lembrou-se que seu mestre poderia encontrá-lo pelas
vibrações do seu corpo diáfano, e apenas alguns minutos depois contemplou a
face dura de Oberon.
–
Desta vez foste longe demais, Robim, Tisbe também já se encontra no mundo das
trevas, pois levada pelo desespero jogou-se em um abismo. Não deverias deixar
tal tragédia acontecer. Pobres espíritos das duas jovens infelizes, viverão
longas jornadas para dirimir os ódios gerados; deverás acompanhá-las e
velar para que seus caminhos sejam os mais leves possíveis.
Titânia,
a rainha das fadas, consternada pelo desfecho brutal que levou a vida de suas
duas afilhadas, abriu para os espíritos das jovens uma janela de esperança:
– Somente
a generosidade e a abnegação de um ato de elevado altruísmo de uma para com a
outra poderá resgatá-las para uma vida onde será o amor o descanso das fadigas
diárias. Que possam ser sábias para realizar o gesto de abandono que abreviará
suas penas.
Não
nos esqueçamos do pobre Iannis, que sofreu duramente a perda das amigas,
ganhando uma couraça de sentimentos duros que o levou a heroicas batalhas até
que perdeu a vida lutando.
Inverno
Puck estava cansado. Vagara muitos séculos acompanhando a
saga daqueles três, ajudando-os a caminhar para a harmonia. Finalmente ele
achava que poderia, enfim, descansar e voltar para o reino das fadas.
Em uma pequena cidade no interior, poucos meses separando o
nascimento de cada um, três bebês veem a luz em três famílias diferentes.
Iannis precede os outros dois. Enquanto as crianças crescem, Puck limita-se a
acompanhá-las e fazer pequenas brincadeiras com suas protegidas. Iannis ficava
particularmente irritado com fios emaranhados, objetos que iam ao chão,
tropeços pelas calçadas, enquanto Puck ria de seu afilhado atrapalhado.
As duas meninas, nascidas em casas gêmeas, tornaram-se
amigas dedicadas. Iannis nascera delas distante e só veio a conhecê-las após a
puberdade. E Puck estava feliz em provocá-los nessas idades em que o amor tinge
os corações de matizes variadas de sonhos, dores e alegrias.
Iannis tinha sua turminha de amigos leais que fazia aos
domingos o footing pela Rua Direita,
enquanto as duas amigas, invariavelmente juntas também passeavam após a sessão
de cinema das seis da tarde. Na primeira vez que Iannis percebeu a presença da
beleza das duas amigas, fora Puck que insuflara Heitor, um dos quatro marotos:
– Quer ver como ela fica brava? – Heitor falou para os
amigos, e chegando-se mais perto das duas que iam pouco à frente – Ei, gatinha
linda, quer namorar comigo?
A reação de Tisbe era voltar-se e chamá-lo de idiota e
outros adjetivos nada lisonjeiros, enquanto Fedra fazia-se surda e admoestava a
amiga para não dar bola. Puck adorava ver aqueles desencontros e insuflava os meninos
a brincar com elas a cada vez que se esbarravam, que eram muitas naquele subir
e descer contínuo pela rua. Aos poucos, Iannis começou a sentir um vazio crescente
quando as duas sumiam da rua devido ao adiantado das horas.
E Puck continuava a brincar e a soprar nos ouvidos dos três
afilhados um pouco de malícia. Certa vez em que Iannis não estava com seus
amigos costumeiros, voltando para casa, as duas estavam em seus calcanhares, e
Tisbe inverteu a brincadeira, assoviando e chamando-o de gatinho. Iannis
encolheu-se em sua timidez e sentiu apenas certa infelicidade por não ser Fedra
quem brincava com ele.
Os meses iam desenrolando-se e aquelas brincadeiras iam
fazendo-se rotineiras. Na porta diária do colégio, enquanto aguardavam a
chamada para o início das aulas, os olhos inquietos de meninos e meninas se
procuravam. Iannis só tinha olhos para Fedra e sentia os dela sobre ele;
queimaduras que se faziam profundas dia após dia.
E Puck exultava. Conseguira seu grande feito de confusão,
mas agora sabia ele que esta seria a última jornada antes de seu regresso para
casa. Tisbe amava Iannis, Iannis amava Fedra, e Fedra?
Iannis tinha uma tarefa que o fazia passar diariamente pela
loja do pai de Fedra, e, muitas vezes, ela lá se encontrava atrás do balcão.
Ele deixava-se ficar a conversar com ela, passeando os olhos por aquele rosto
que lhe fazia sonhar com o passado desconhecido e com o futuro de sonhos. Puck
acompanhava o enleio com atenção e esperança, até que Iannis falou a Fedra de
seu amor e de seu sonho de poder torná-la sua namorada.
– Eu não posso te namorar, pois, se o fizer, Tisbe vai
brigar comigo. Eu não posso fazer isto com ela, crescemos juntas, ela é como
uma irmã para mim.
Enquanto Puck pulava tontamente de felicidade, naquela
noite o choro correu livre e escondido pela escuridão solitária em duas camas.
Só houve tristezas, nenhum rancor, e continuaram sendo amigos. Três vidas marcadas
por aqueles anos inocentes pela grande generosidade de Fedra, que libertou Puck
para voltar ao seu mundo.
Primavera
Puck foi recebido com alegria pelos elfos irmãos, e a
Rainha das Fadas pediu a ele apenas que vez em quando olhasse por aqueles três.
E ele o fazia, continuando a provocá-los apenas com suas pequenas brincadeiras.
Os anos passaram. Iannis tinha ido para terras estranhas.
Muitos anos. Um dia Fedra recebe uma carta, sem o remetente declarado, e na
carta pôde ler apenas este poema:
quando eu vivia no
jardim do éden
tinha eu
quinze anos perpétuos
andando por
vales e fontes
morando no
jardim do éden
de uma noite
de sono agitada
acordei no
lado trazendo
uma dor de
coração rachado
dois sóis
nos olhos brilhavam-me
espelhos da
minha carne
tão perto
dos meus sorriam-me
tomou-me as
mãos trementes
murmurou em
alvos dentes: vem
aos pés da
árvore levou-me
mostrou-me um
caqui pendente
vermelho tinha
a cor de pecado
pulsando a
explodir de amor
a serpente
ao lado enrolada
um chocalho
de aviso rilhou
não a
queiras fazer-se senhor
tudo o mais
não foi interdito
outros sóis
os dias faziam
outras luas
noites faziam
outras
frutas faziam sabor
era rei de
reino tão vasto
de vasta
solidão era senhor
no meio do
jardim jazia
na árvore do
sumo do amor
dois olhos
que luz sabiam
no espelho
dos dias passados
fizeram em
uma eternidade
os raios de
luz condensados
pendente o
caqui preservou
os sóis que
não se apagaram
o amor que
não se entregou
tenho eu
quinze anos infindos
fitando um
caqui pendurado
de cento e
vinte anos perfumado
Puck presenciou o momento em que Fedra, lendo o poema,
voltou a chorar. Era-lhe proibido, mas ele queria dizer-lhe que aquele choro não era necessário.
Quando ela caiu no sono, fazendo uma última arte, mostrou-lhe em sonho um
futuro não muito longe, deixando-lhe a ventura de saber que viverá um sonho de
uma noite de...
verão
– amore mio, ho aspettato tanti anni per dirti...
– cosa?
- tu
sei lucida
-
ahn?
i
d a
c i d a
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