quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Momentos com Fedra

             Lembra-te

Lembra-te de Atenas, Fedra?
guardas nos olhos a poção
que iluminou o teu olhar
que te despertou no amor
para todo o amplexo da vida
tiveste um instante desperta
breve luz que gravou o fogo
para contemplar o alvorecer
de séculos de transe e dor

Lembra-te de Paris, Heloísa?
aos pés de Notre Dame levantando-se
ensinava-te os universais
ensinavas-me a sedução
cortaram-me os teus encantos
consumaram-me em ex-Abelardo
ordenei-me por expiação
em convento foste enterrada
erigindo em tuas cartas
a doce perenidade do amor

Lembra-te do Porto, Mariana?
foste-me fiel anjo protetor
das grades da prisão
ao navio do degredo
fiel servidora do amor
renúncia de ser ao servir
que Camilo eternizou
no teu amor inconsumível
no teu amor de perdição.

Lembra-te de não esquecer
Lembra-te de não te anular
Lembra-te de ser tua voz
Lembra-te de querer o amor


                   -o-


              Mistério

Ficaste com um pedaço da minha alma
Onde foi que o escondeste?
Andei por tantas terras sem ele

Na terra onde fui plantado
Uma árvore cresceu solitária
Proibida de seus frutos gerar

Subi ao monte mais alto
Buscando encontrar seu vestígio
Ouvi da sarça ardente: não

Consultei velhos alfarrábios
À procura da resposta mais santa
Eles me responderam: não

Ergui a voz para Júpiter
Falei que minha sina era malsã
Ele respondeu-me sem dó: não

Cresceu em mim o saber
A esperança se fez como uma guia
O tempo inclemente disse não

Voltei à terra de minha infância
Aos pés da árvore me joguei
Em pedaços esperava um não

Ela sorriu-me encabulada
Estendeu-me um fruto vigoroso
Sorriu-me e disse: aqui estão

Teu pedaço guardei junto à minha
Cultivei-as envoltas em lembranças
Para poder devolver: são tuas.


                      -o-


Receita de omelete

Pegue dois ovos
misture clara e ovo
para temperar
uma pitada de noz-moscada
pimenta-do-reino
azeite para fritar
uma porção de ricota
espalhe sobre a fritura
uma fatia de queijo branco
de São Roque lá da Serra da Canastra
enrole.

Um ingrediente
no entanto vai faltar-lhe
pois só eu o tenho,
para temperar
no lugar do sal
uma porção do meu amor.

Enfeito com ervas
levo para meu amor
vejo nos seus olhos
espelhando nos seus brilhos
os sabores de criança

o sabor da pipoca saltitante
o sabor do confeito de amendoim
o sabor de nuvem do algodão-doce

Meu amor se veste de sorrisos
eu embevecido
dou graças à terra
ao fogo, ao ar e à água
por ter feito para o meu amor
uma porção de amor.


                -o-


               Cura

Ela chegou claudicando
tinha uma patinha ferida
Tomei-a nos braços dolente
ela se entregou ao amor
Minha mão deslizou suave
afagando sua pele ansiosa
Correram o seu corpo todinho
sentindo os seus arrepios
Rolou a buscar em meus braços
o seu medo da dor sossegar
Minhas mãos falavam de amor
seu corpo em tremor refletia
Achei um espinho ferindo
no alto dos meus carinhos
Ela estremeceu de aflição
engoli os seus arrepios
Puxei com raiva o acúleo
bebi o seu sangue ferido
Baixei nos olhos uma cortina
vedando os raios de trás
Um filtro nos seus ouvidos
parando os sons mais ferinos
Em sua boca, ah, em sua boca
busquei deixar apenas... huumm...
Meu hálito tão quente levava
o perfume que o amor exalava
Dormiu em meus braços silente
abracei seu corpo inteirinho
Nada deixando onde pudesse
machucar um outro espinho


                    -o-


Há um poema em mim que eu não paro de recitar
Fala-me tão fundo na minha mais pura essência
Conta-me histórias que eu quero viver na eternidade
Repete-me que a vida é um sonho de um nunca acabar

Há um poema em mim que meus olhos procuram num olhar
Fere-me tão fundo o coração que treme o corpo a palpitar
Traz-me uma luz que brilha na minha noite solitária
Traz-me uma sombra que me alivia do fogo do dia

Há um poema em mim que não sei como fazer calar
Que grita em desespero para o mundo: do amor sou ser
Que me queima com violência fazendo-me em cinzas
Que me eleva como astro a conviver com as estrelas

Há um poema em mim que eu não paro de recitar
Foi feito na aurora do universo em um instante de paz
Há um poema em mim que eu não paro de recitar
Que me incendeia a boca falando do amor em minúcias

Há um poema em mim que eu não paro de recitar


                                       -o-


        Torre de Babel

sou um reles peregrino
expulso do jardim do éden
um anjo com espada de fogo
postou-se em meu caminho
não ando por vales e montes
estou preso em porão escuro
aliviado dos raios do sol
onde a árvore do meu saber?
tenho a linguagem do amor
solto a língua ao vento bravio
responde-me um eco gélido
nada ouve meus murmúrios
oh senhor deixai-me novamente
voltar ao calor da luz
dai-me de volta meus olhos
dai-me de volta o caqui


                -o-


        Atalho para o não existir

Um vestido vermelho há anos guardado
mantido em lágrimas tecidas em rímel
gotas de assombro que gestam uma voz
que canta na noite as pedras das dores

Sai ao sol para vestir-se da noite
cobre o corpo vibrante de amor
resplende à doce violência do poder
quebra em retalhos as duras cadeias

Posta a mesa em alva toalha
velas vermelhas incandescentes
tingem a noite de rezas dolentes
vozes gregorianas cantam o amor

Duas taças de vinho fazem a prece
à dádiva do písceo banquete
rósea carne cozida suavemente
em amarela fragrância temperada

Uma taça de tequila
dá cores aos sonhos
eleva os pés da ninfa
ao altar de Dionísio

Dançam Serenade ao violino
os corpos em um entrelaçados
faz-se uma noite vermelha
a vida não é mais necessária



















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