Lembra-te
Lembra-te
de Atenas, Fedra?
guardas
nos olhos a poção
que
iluminou o teu olhar
que
te despertou no amor
para
todo o amplexo da vida
tiveste
um instante desperta
breve
luz que gravou o fogo
para
contemplar o alvorecer
de
séculos de transe e dor
Lembra-te
de Paris, Heloísa?
aos
pés de Notre Dame levantando-se
ensinava-te
os universais
ensinavas-me
a sedução
cortaram-me
os teus encantos
consumaram-me
em ex-Abelardo
ordenei-me
por expiação
em
convento foste enterrada
erigindo
em tuas cartas
a
doce perenidade do amor
Lembra-te
do Porto, Mariana?
foste-me
fiel anjo protetor
das
grades da prisão
ao
navio do degredo
fiel
servidora do amor
renúncia
de ser ao servir
que
Camilo eternizou
no
teu amor inconsumível
no
teu amor de perdição.
Lembra-te
de não esquecer
Lembra-te
de não te anular
Lembra-te
de ser tua voz
Lembra-te
de querer o amor
-o-
Mistério
Ficaste
com um pedaço da minha alma
Onde
foi que o escondeste?
Andei
por tantas terras sem ele
Na
terra onde fui plantado
Uma
árvore cresceu solitária
Proibida
de seus frutos gerar
Subi
ao monte mais alto
Buscando
encontrar seu vestígio
Ouvi
da sarça ardente: não
Consultei
velhos alfarrábios
À
procura da resposta mais santa
Eles
me responderam: não
Ergui
a voz para Júpiter
Falei
que minha sina era malsã
Ele
respondeu-me sem dó: não
Cresceu
em mim o saber
A
esperança se fez como uma guia
O
tempo inclemente disse não
Voltei
à terra de minha infância
Aos
pés da árvore me joguei
Em
pedaços esperava um não
Ela
sorriu-me encabulada
Estendeu-me
um fruto vigoroso
Sorriu-me
e disse: aqui estão
Teu
pedaço guardei junto à minha
Cultivei-as
envoltas em lembranças
Para
poder devolver: são tuas.
-o-
Receita de omelete
Pegue
dois ovos
misture
clara e ovo
para
temperar
uma
pitada de noz-moscada
pimenta-do-reino
azeite
para fritar
uma
porção de ricota
espalhe
sobre a fritura
uma
fatia de queijo branco
de
São Roque lá da Serra da Canastra
enrole.
Um
ingrediente
no
entanto vai faltar-lhe
pois
só eu o tenho,
para
temperar
no
lugar do sal
uma
porção do meu amor.
Enfeito
com ervas
levo
para meu amor
vejo
nos seus olhos
espelhando
nos seus brilhos
os
sabores de criança
o
sabor da pipoca saltitante
o
sabor do confeito de amendoim
o
sabor de nuvem do algodão-doce
Meu
amor se veste de sorrisos
eu
embevecido
dou
graças à terra
ao
fogo, ao ar e à água
por
ter feito para o meu amor
uma
porção de amor.
-o-
Cura
Ela
chegou claudicando
tinha
uma patinha ferida
Tomei-a
nos braços dolente
ela
se entregou ao amor
Minha
mão deslizou suave
afagando
sua pele ansiosa
Correram
o seu corpo todinho
sentindo
os seus arrepios
Rolou
a buscar em meus braços
o
seu medo da dor sossegar
Minhas
mãos falavam de amor
seu
corpo em tremor refletia
Achei
um espinho ferindo
no
alto dos meus carinhos
Ela
estremeceu de aflição
engoli
os seus arrepios
Puxei
com raiva o acúleo
bebi
o seu sangue ferido
Baixei
nos olhos uma cortina
vedando
os raios de trás
Um
filtro nos seus ouvidos
parando
os sons mais ferinos
Em
sua boca, ah, em sua boca
busquei
deixar apenas... huumm...
Meu
hálito tão quente levava
o
perfume que o amor exalava
Dormiu
em meus braços silente
abracei
seu corpo inteirinho
Nada
deixando onde pudesse
machucar
um outro espinho
-o-
Há
um poema em mim que eu não paro de recitar
Fala-me
tão fundo na minha mais pura essência
Conta-me
histórias que eu quero viver na eternidade
Repete-me
que a vida é um sonho de um nunca acabar
Há
um poema em mim que meus olhos procuram num olhar
Fere-me
tão fundo o coração que treme o corpo a palpitar
Traz-me
uma luz que brilha na minha noite solitária
Traz-me
uma sombra que me alivia do fogo do dia
Há
um poema em mim que não sei como fazer calar
Que
grita em desespero para o mundo: do amor sou ser
Que
me queima com violência fazendo-me em cinzas
Que
me eleva como astro a conviver com as estrelas
Há
um poema em mim que eu não paro de recitar
Foi
feito na aurora do universo em um instante de paz
Há
um poema em mim que eu não paro de recitar
Que
me incendeia a boca falando do amor em minúcias
Há
um poema em mim que eu não paro de recitar
-o-
Torre de Babel
sou
um reles peregrino
expulso
do jardim do éden
um
anjo com espada de fogo
postou-se
em meu caminho
não
ando por vales e montes
estou
preso em porão escuro
aliviado
dos raios do sol
onde
a árvore do meu saber?
tenho
a linguagem do amor
solto
a língua ao vento bravio
responde-me
um eco gélido
nada
ouve meus murmúrios
oh
senhor deixai-me novamente
voltar
ao calor da luz
dai-me
de volta meus olhos
dai-me
de volta o caqui
-o-
Atalho para o não existir
Um
vestido vermelho há anos guardado
mantido
em lágrimas tecidas em rímel
gotas
de assombro que gestam uma voz
que
canta na noite as pedras das dores
Sai
ao sol para vestir-se da noite
cobre
o corpo vibrante de amor
resplende
à doce violência do poder
quebra
em retalhos as duras cadeias
Posta
a mesa em alva toalha
velas
vermelhas incandescentes
tingem
a noite de rezas dolentes
vozes
gregorianas cantam o amor
Duas
taças de vinho fazem a prece
à
dádiva do písceo banquete
rósea
carne cozida suavemente
em
amarela fragrância temperada
Uma
taça de tequila
dá
cores aos sonhos
eleva
os pés da ninfa
ao
altar de Dionísio
Dançam
Serenade ao violino
os
corpos em um entrelaçados
faz-se
uma noite vermelha
a
vida não é mais necessária
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