quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Paraíso

Paraíso

– Miguilim, vamos fazer um passeio hoje?
– E aonde vamos, Doutor?
– Em um cantinho de terra onde eu tive muitas alegrias.
– Em um cantinho? Assim como no Mutum? Um lugarzinho longe que a gente tem guardado bem aqui dentro, que desfia na cabeça que nem uma fita de cinema, que não para nunca de rodar?
– Assim mesmo, Miguelim, um cantinho querido da memória.
– Mas o Doutor nunca morou num cantinho de roça assim que nem o meu.
– Não, não morei, mas por isso mesmo eu tinha uma paixão por um lugar que muitas e muitas vezes eu ia visitar quando era menino.
– Era bonito esse cantinho?
– Quando menino achava-o muito gostoso, mais tarde passei a admirar o tanto de riqueza que se levantava de tão pouca terra.
– Por quê, Doutor, era terra muito rica?
– Pelo que ela produzia, Miguelim, era realmente muito rica, mas a riqueza dela ficava escondida atrás do trabalho diligente dos meus primos.
– Ué, Doutor, se fosse tão rica não precisava de tanto trabalho.
– Verdade, mas o trabalho esforçado, que transforma a terra em riqueza, recompensa quem o faz com um tesouro.
– Nossa, Doutor, deve ser assim como achar ouro, um montão!
– Mais ou menos, Miguelim, o ouro era minerado pela educação que meus primos davam para os filhos: o resultado de tanto trabalho acumulou uma riqueza.
– E era mesmo tanto trabalho assim?
– O dia era bem pouco para o que se necessitava fazer. Lá naquele cantinho não se podia pôr um freio na vida para gozar o namoro com a vida mansa que se pensa da roça.
–Era bem assim lá no Mutum também, Doutor, com meu pai e minha mãezinha, era só um duro labutar.
– Pois é, Miguelim, para nós que lá íamos brincar, era tudo só prazer, para eles um esforço diário para não deixar trabalho esmorecer.
– E como você ia para lá?
– Quando eu era muito menininho, perturbava meu pai, eu mais meus irmãos, para levar-nos nas tardes de domingo.
– E por que você falou perturbava, ele não queria ir?
– Não, ele queria sim, mas aquelas tardes eram momentos sagrados para descanso. Após o almoço, ele se retirava para o quarto dele e dormia algumas poucas horas de sono.
– Ah sei, se ele os levasse a passear, ele perdia o soninho.
– Pois é, mas muitas vezes ele fazia o sacrifício do seu descanso, chamava o.Teodoreto e embarcava a tropa toda no velho Chevrolet preto.
– Era longe?
– Não era longe, mas as nossas perninhas sofriam para cobrir a meia-légua até lá, mas na volta elas tinham que funcionar.
– E lá no cantinho, o que havia de tão gostoso?
– Muitas brincadeiras e muita coisa gostosa. O sítio era cheio de frutas de todos os tipos e, se era tempo de laranjas, o primo Celiton levava meu pai para encher um saco de suculentas de tipos e sabores diferentes.
– E todo mundo se deliciava a chupar as gordinhas?
– Fazia-se uma roda grande e os adultos iam conversando e descascando as laranjas para as crianças, que faziam algazarra nas brincadeiras ao redor. Enquanto isto, o tio Custódio, para nós apenas tio Tó, sem camisa, mostrando as costelas que marcavam a sua magreza, batia uma garrafa de manteiga.
– Ele ficava sacudindo a garrafa na mão?
– E passava a tarde naquela tarefa enfadonha, batendo aquela garrafa, mas o resultado era aquela manteiga deliciosa que nunca mais provei igual.
– Hum, que saudade da manteiga feita na lá no Mutum.
– E tinha muita fruta mais?
– Tinha jabuticabas com fartura, que enchiam nossa gula de perigos. No dia seguinte pagávamos caro a preguiça de jogar os caroços fora. A barriga endurecia e não se conseguia botar os caroços para fora. E tome laxante para fazer o alívio.
– Eu bem sei que mal esse, Doutor, de ficar entupido.
– E muitas outras frutas que tínhamos que aguardar a época própria para poder sufocar a nossa gulodice, que não esperava o adocicar que a maturação trazia e comia-as mesmo “de vez”, como as mangas.
– E que fruta mais?
– Abiu, que tinha a alegria de uma doçura sem igual e a tristeza de tão pouca alegria no caldo pouco e caroços imensos.
– Que delícia um abiu, e que mais?
– Cajá-manga, que o tio Tó comparava ao casamento, ele dizia que no princípio era meio ácido, depois a parte mais doce trazia os espinhos do caroço que eram os filhos.
– Essa fruta eu nem conheço, Doutor.
– É mesmo, Miguelim, mineiro não sabe nada de cajá-manga, tão raro aparecer por estas bandas, mas por lá dava de montão.
– Com tanta fruta devia ser mesmo muito gostoso esse cantinho.
– Logo que nossas pernas ganharam ares de liberdade para cobrir a estrada sozinhas, eu e meu primo, que éramos gêmeos de famílias diferentes, partíamos para lá, passando pela estação e seguíamos de trem até quase a entrada da estrada que saía da Rodagem.
– Que legal, Doutor, vocês iam deveras de trem?
– Pelo menos em nossa imaginação, Miguelim. Seguíamos pelas linhas do trem brincando sobre os dormentes que as pernas pequenas tinham que espicharem-se para tocar.
– E não tinham medo de um trem chegar bem ligeiro?
– Não havia mais trens, só os trilhos ficaram durante um longo tempo com saudade das locomotivas que resfolegavam. Mas lembro-me de ceder os trilhos para o trem passar, mas era muito pequeno para estar sem a companhia de meu pai, e era muito divertido.
– E o trem passava bem pertinho.
– Nossa estação era fim de linha, e foi logo desativada quando os carros passaram a mandar.
– Que pena, Doutor, andar de trem devia ser bem legal.
– Eu nem sabia, Miguelim, levou muito tempo para que eu subisse em um trem. Mas lembro-me muito, de nossas fugidas para o cantinho, de um dia quando resolvemos fazer um caminho que achávamos que era um atalho para lá chegar.
– E ficava mais perto?
– Nem sabíamos, mas quando estávamos por lá, víamos a estrada que levava a uma fazenda atrás do morro, e aprendemos que subindo por aquela estrada poderíamos nos embrenhar pelos pastos, descer o morro e chegar no vale.
– Então era bem mais custoso.
– Mas o espírito de aventura e vontade de desbravar nos empurrava para a novidade, assim nesse dia não pegamos a estrada de ferro, seguimos pela rodagem em busca da estrada que ia para aquela fazenda.
– Eu também gostava de aventuras assim, sair pelo meu sertão em busca de lugares que nunca antes pisaram os meus pezinhos.
– E assim fomos subindo aquele morro e procurando nas brincadeiras maneiras novas de fazer a estrada menos penosa. Até que chegamos onde já avistávamos o sítio, e resolvemos entrar no pasto para descer o morro.
– E tinha uma trilha para seguir?
– Não, não era um caminho usado nem pelo gado. Ao chegar na cerca de arame farpado, vimos uma novilha ali perto pastando. Como estávamos acostumados a viver no meio daqueles bichos, nem nos abalamos, e passamos a cerca.
– Tem que ter cuidado para não se espetar nas farpinhas.
– Estávamos acostumados a levar cavalos no pasto e nada daquilo nos intimidava. Quando nos vimos dentro do pasto, e após dar alguns passos, a novilha resfolegou, acho que não gostou da nossa bravura, e avançou para nós em carreira certeira.
– Nossa, Doutor, e que aconteceu?
– Foi aí que o susto destravou as rédeas da nossa coragem que não sabíamos mais onde foi ela parar. Cada um saiu correndo para um lado, deixando ao destino a escolha do coitado que ia sofrer.
– E aí, Doutor, estou eu aflito de susto também, quem ela escolheu?
– Ela veio direto para cima de mim, corri um tanto e sentindo ela pertinho, joguei-me no chão pelo menos para evitar uma cabeçada da fera.
– E ela não te pisou?
– Não sei de onde apareceu um moço, não o tínhamos visto, ele veio como do nada e afastou a novilha de onde eu estava.
– Poxa, Doutor, tive um medão por você.
– Imagine o meu, naquele momento eu me vi pisoteado e espremido pela cabeça da besta.
– E chifrado.
– Quando dei-me conta que ela não me tocou, vi-a correndo para outro lado, e o moço agitando os braços e gritando com ela.
– Que alívio, Doutor.
– Pusemos os dois os rabos entre as pernas e descemos o pasto sem nem agradecer ao moço por livrar-nos do mal pior, os corações disparados e num acordo tácito de não contar para ninguém do que havíamos passado.
– Eu ia correr pra contar pra minha mãezinha o susto que eu tive.
– Mas nós prezávamos nossa liberdade, melhor os sustos que perdê-la; apertos nós passávamos em diversas ocasiões, mas depois do susto, brincar era a regra e despachávamos para a farra.
– E tinha muita coisa gostosa pra fazer lá?
– E como tinha. No alto do morro havia uma mata cerrada onde gostávamos de ir brincar, cipós correndo do alto das árvores faziam-nos virar o Tarzan e balançar sobre o declive do morro, bem alto.
– Acho que vocês deviam mais parecer a Chita.
– Fazíamos mesmo muitas macacadas, e entrávamos pela mata a brincar de caçadores.
– E enquanto vocês brincavam, a trabalheira dos primos continuava...
– Pois é, e nem tínhamos consciência do que era preciso para ter aquela mesa farta de biscoitos e bolos que nos enfeitavam os olhos no café da tarde.
– Quanta gostosura no café da roça!
– Queijo, manteiga, leite, tudo feito lá mesmo, e muito mais. E foi então que meu primo comprou um Fordinho para poder levar suas mercadorias para a cidade, e para nós foi mais uma alegria, nps acordes da música O Calhambeque divertíamo-nos a valer.
– Que legal, Doutor!
– E fomos crescendo e outros interesses nos afastaram de lá, enquanto minha admiração pelo trabalho dos meus primos ia também crescendo, pois passei a compreender o esforço do trabalho feito com tanto amor!
– Poxa!
– É tarde, Miguelim, trate de dormir. Boa noite!
– Boa noite, Doutor, gostei muito de visitar o seu Paraíso!

-o-

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

A mancha negra



A mancha negra

– Bom dia, Dona Menina.

– Num sei, num tô muito pra bom dia hoje não.

– Ara, que danado de aperreio mais mofino é esse? Acho que nem nunca vi a comadre assim.

– Pois é, acho que num devia ter-me alevantado hoje, melhor seria ter ficado morgada na cama.

– Ah, é, comadre? Tá com gana de abreviar a caminhada pro carneiro?

– Tanto faz, já tô mesma meio descarnada.

– Virge, a coisa tá feia mesma, precisa de urgência de uma bendição.

– Só se fosse pra imergir num banho de água-benta.

– Cruz credo, comadre, é o coisa ruim que tá azucrinando a senhora?

– Só pode, Donana. Ele aprontou maldade das piores comigo, coisa que só mesmo aquela peste arrenegada poderia pensar em cometer.

– Mas a senhora sempre foi tão forte, tão protegida pela Virgem Santíssima, num acredito que o coisa tenha furado as suas barreiras de fé.

– Mas num foi comigo assim de modo direto, ele tomou ciência que eu tava assim meio despreocupada, remansada na vida tranquila, e aproveitou pra enfiar o chifre assim sem mais delonga no casamento da minha caçula.

– Da Dorinha?

– É.

– E que mal lhe pergunte, Dona Menina, as coisas num tão lá boas com o marido dela não?

– Tá nada, tá um despropósito danado de ruim, que a minha santinha não permita que acabe em descasamento.

– Que triste, mas as coisas se arranjam, o tempo conserta os malfeitos.

– Já tô sem esperança. Aquele chifrudo não tá deixando a coisa se aprumar. Veja só, em antes os dois vinham estremecidos por causa do empréstimo que o marido fez com o tinhoso dos apetrechos chifrudos para dar um presente pra Dorinha.

– Senhora Dona Menina , estou desolada... desolada! E imaginar que era um casalzinho tão apaixonado, que a gente via e pensava na beleza do amor deles que devia de durar pra sempre.

– Então, né? É isto que mais dá desolação. Era tão lindo.

– Pois é, no casamento deles eu fiquei tão enternecida. Tudo tão bonito, apesar da simplicidade do casório.

– Acho que foi ali mesmo que começou o degringolamento.

– Ara, Dona Menina, como pode? Ali é que tudo começou do bom e do melhor.

– Nem tanto, nem tanto. Sabe o que a Dorinha me contou noutro dia que ela tava mais triste que dia de garoa fininha?

– E como havera eu de saber, comadre?

– É, a gente nem pode ter na imaginação que coisa assim aconteça, mas aquela besta do Padre Joaquim aprontou poucas e boas com eles dois.

– Com o casal, Dona Menina?

– E num foi, Donana, num é à toa que tenho meus quiproquós com aquele pedaço de asno.

– Eu sei que a senhora tem lá suas desavenças com o padre, Dona Menina, mas num pode ser assim tão ruim, ele é um bom homem, fervoroso, cheio de boas intenções de agradar a Deus.

– À vez eu acho que ele agrada mais ao diabo chifrudo com o exagero de mania de impor pros outros a sua ignorância do trato com Deus, vê se precisa tamanha falta de amor pros modos dos fiéis, mais parece que a gente vive nos tempo da inquisição.

– Senhora Dona Menina, ele só quer uma Igreja santa, pia e devota, a senhora não tá de acordo que devia de ser assim mesmo?

– E quando foi que Nosso Senhor fez desfeita com aqueles que mais precisavam dele?

– Mas o Padre Joaquim não desfeita ninguém que respeite as leis da Santa Madre Igreja.

– E quem num baixa o cangote pra aqueles modos de exagero, ele manda pros infernos?

– Mas a senhora tá muito revoltada, comadre, e o quê de fato mesmo que aconteceu?

– A maldade do fato acontecido foi que quando os dois, Dorinha e o namorado, foram lá na igreja pra marcar a data do casório, o santarrão aprontou com eles uma aberração.

– E o que foi essa coisa tão aberrante assim, Dona Menina?

– Ara, a Dorinha contou pra mim, e só agora é que ela veio a me falar do acontecido, no momento exato em que ela estava debulhada em choro; na ocasião que a coisa assucedeu ficou calada e muda.

– Poxa, Dona Menina, solta logo isso que já estou afundada em agonia.

– Ela contou pra mim bem assim: que ele se assentou na frente deles com a agenda da igreja, e que começou a arengar com eles que por serem muito jovens eles iam casar em pecado.

– Uai, e desde quando é pecado casar jovem?

– Pois então, ele disse, isto a Dorinha contou pra mim no meio daquele choro estropiado, que ele disse que eles tinham o propósito desmesurado de evitar filhos, e que isso era pecado, que a intenção deles de casar era só pra gozar dos pecados da carne.

– Mas, comadre, a senhora num acha isso de um assunto dos demais controvertido?

– Eu num acho e você sabe muito bem que num aprovo essas esquisitices. Se Deus fez a gente com uma ferramenta pra diversão, por que ele ia proibir o uso?

– Mas a Santa Madre Igreja prega em seus princípios mais sagrados a castidade.

– E você põe em prática tudo aquilo que ela prega?

– Bom, nesta matéria... de quando em vez a gente acaba cometendo um pecadozinho...

– E vai no confessionário, e pronto, tá tudo arranjado.

– Ara, se Deus nos deu esta oportunidade de arrependimento...

– E nunca mais peca, né?

– Bom... num é bem assim.

– E volta no confessionário, e pronto.

– Mas a Dona Menina tava contando que o padre admoestou os dois.

– Pois é, corre do assunto. Aí, no meio daquela arenga, a Dorinha falou que ele falava aquilo tudo sem alevantar os olhos pra eles, de cabeça baixa enterrada na agenda. Fico pensando até que era a beleza dela que incomodava ele...

– Cruz credo, comadre, o homem é um santo.

– Santo não causa mal pros outros.

– E que mal foi que ele causou?

– Pois foi depois de condenar eles pelo pecado de casar que ele disse que faria o casamento, pois não estava livre pra negar, mas que não permitiria que os dois pudessem receber a santa comunhão, porque os dois já estavam em pecado.

– Ai, meu Deus, ele negou então a bênção da Igreja?

– E num foi?

– Oh, que triste.

– Então, a Dorinha chorava e dizia que tudo era por causa daquele urubu, que havia condenado o casamento deles como uma coisa do diabo.

– Ah, que triste, Dona Menina, estou pasmada!

– Pois foi que o marido dela, que já não estava satisfeito só com ela, foi arrumar uns chifres pra colocar na cabeça dela, e o casamento ficou de todo chamuscado.

– Mas será que o padre teve culpa na vulgaridade do moço, Dona Menina?

– Tenho minhas dúvidas, comadre, mas acho que bem ajudou.

– Sem a bênção de Nosso Senhor tudo fica mais difícil, né?

– Mas é aí que mora a minha dúvida, Donana, quem não deu a bênção foi o padre, Nosso Senhor não se negaria.

– Ah, o arrazoado é bom, então a culpa é só mesmo do moço, né?

– Aí também não sei, pois não sei como é que se abre a porta do inferno.

– (Donana faz o sinal da cruz) O Senhor nos livre e guarde.

– Pois foi então, Donana, que ele até tirou uns dias de repouso e foi para uma aldeia tranquila lá pros lados da Bahia pra descansar e pôr a cabeça em ordem, flanando à beira do mar.

– E não deu resultado, comadre?

– Até que deu, Donana. Quando ele disse pra Dorinha que estava pra pegar o caminho de volta, ela se alegrou de tudo, quis se enfeitar toda pra receber ele.

– Que ternura, comadre, e como foi?

– Nem lhe digo, Donana, pois num foi que ele disse pra ela que ia chegar de noite? Ela foi toda ligeirinha numa loja dessas coisas bonitas dessa moçada nova, escolheu uma camisola linda, e ficou à espera dele, toda saudosa e charmosa.

– Ah, que alegria pra esses casalzinhos!

– Mas nem tudo foi alegria, Donana.

– E o que houve, comadre, está a deixar eu mais que aflita!

– Pois aí foi que ele chegou, contou-me a Dorinha, que ela estava com a camisolinha preta toda em esperança...

– Que lindo, Dona Menina, que amor devia de estar!

 E aí os dois estavam numa felicidade só! Um abraço longo, um beijo longo de paixão, e...

– E...  e o que, comadre, tá se deleitando em me agoniar?

– E quando eles se afastaram um pouquinho, ele viu sobre os seios dela uma mancha preta enorme.

– Uma mancha preta? E de que raios teria aparecido essa mancha preta?

– Pois a Dorinha principiou a chorar, que não sabia o que era aquilo, que a camisola era novinha.

– E aí, comadre?

– Aí foi que ele disse pra ela que aquilo num era nada, devia ser do tecido da camisola.

– E era?

– A Dorinha tentou de todo modo replicar a mancha em outro lugar, e nada conseguiu.

– Oh, meu Deus, o que foi então?

– Foi aí que ela disparou no choro, pois achava que o coisa ruim estava perseguindo-os, que queria desdourar ela aos olhos do marido.

– Ah, meu Deus, mas por que ela pensava assim?

– Por tudo que eles já tinham passado, tudo atrapalhado na vida deles. Ela não se conformava, e culpava o padre de todo seu infortúnio.

– E não se descobriu de onde surgiu a mancha?

– Não, eles não descobriram. E ela foi tomar banho para tirar a mancha, e o encanto da noite estava quebrado.

– Poxa, que coisa mais triste! Mas eu bem sei que a comadre não acredita no maligno.

– E num é, eu sempre achei que o chifrudo é só uma sombra que mora dentro de cada um.

– E então, como a comadre explica que a mancha apareceu?

– Fico a cismar. Num acredito no cujo, mas à vez vejo o efeito das suas malignidades.



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