Paraíso
– Miguilim,
vamos fazer um passeio hoje?
– E
aonde vamos, Doutor?
– Em
um cantinho de terra onde eu tive muitas alegrias.
– Em um
cantinho? Assim como no Mutum? Um lugarzinho longe que a gente tem guardado bem
aqui dentro, que desfia na cabeça que nem uma fita de cinema, que não para
nunca de rodar?
– Assim
mesmo, Miguelim, um cantinho querido da memória.
– Mas
o Doutor nunca morou num cantinho de roça assim que nem o meu.
– Não,
não morei, mas por isso mesmo eu tinha uma paixão por um lugar que muitas e
muitas vezes eu ia visitar quando era menino.
– Era
bonito esse cantinho?
–
Quando menino achava-o muito gostoso, mais tarde passei a admirar o tanto de
riqueza que se levantava de tão pouca terra.
– Por
quê, Doutor, era terra muito rica?
– Pelo
que ela produzia, Miguelim, era realmente muito rica, mas a riqueza dela ficava
escondida atrás do trabalho diligente dos meus primos.
– Ué,
Doutor, se fosse tão rica não precisava de tanto trabalho.
–
Verdade, mas o trabalho esforçado, que transforma a terra em riqueza,
recompensa quem o faz com um tesouro.
– Nossa,
Doutor, deve ser assim como achar ouro, um montão!
– Mais
ou menos, Miguelim, o ouro era minerado pela educação que meus primos davam
para os filhos: o resultado de tanto trabalho acumulou uma riqueza.
– E
era mesmo tanto trabalho assim?
– O
dia era bem pouco para o que se necessitava fazer. Lá naquele cantinho não se
podia pôr um freio na vida para gozar o namoro com a vida mansa que se pensa da
roça.
–Era
bem assim lá no Mutum também, Doutor, com meu pai e minha mãezinha, era só um
duro labutar.
– Pois
é, Miguelim, para nós que lá íamos brincar, era tudo só prazer, para eles um
esforço diário para não deixar trabalho esmorecer.
– E
como você ia para lá?
– Quando
eu era muito menininho, perturbava meu pai, eu mais meus irmãos, para levar-nos
nas tardes de domingo.
– E
por que você falou perturbava, ele não queria ir?
– Não,
ele queria sim, mas aquelas tardes eram momentos sagrados para descanso. Após o
almoço, ele se retirava para o quarto dele e dormia algumas poucas horas de
sono.
– Ah
sei, se ele os levasse a passear, ele perdia o soninho.
– Pois
é, mas muitas vezes ele fazia o sacrifício do seu descanso, chamava o.Teodoreto
e embarcava a tropa toda no velho Chevrolet preto.
– Era
longe?
– Não
era longe, mas as nossas perninhas sofriam para cobrir a meia-légua até lá, mas
na volta elas tinham que funcionar.
– E lá
no cantinho, o que havia de tão gostoso?
– Muitas
brincadeiras e muita coisa gostosa. O sítio era cheio de frutas de todos os tipos
e, se era tempo de laranjas, o primo Celiton levava meu pai para encher um saco
de suculentas de tipos e sabores diferentes.
– E
todo mundo se deliciava a chupar as gordinhas?
– Fazia-se
uma roda grande e os adultos iam conversando e descascando as laranjas para as
crianças, que faziam algazarra nas brincadeiras ao redor. Enquanto isto, o tio Custódio,
para nós apenas tio Tó, sem camisa, mostrando as costelas que marcavam a sua
magreza, batia uma garrafa de manteiga.
– Ele
ficava sacudindo a garrafa na mão?
– E
passava a tarde naquela tarefa enfadonha, batendo aquela garrafa, mas o
resultado era aquela manteiga deliciosa que nunca mais provei igual.
– Hum,
que saudade da manteiga feita na lá no Mutum.
– E
tinha muita fruta mais?
– Tinha
jabuticabas com fartura, que enchiam nossa gula de perigos. No dia seguinte
pagávamos caro a preguiça de jogar os caroços fora. A barriga endurecia e não
se conseguia botar os caroços para fora. E tome laxante para fazer o alívio.
– Eu
bem sei que mal esse, Doutor, de ficar entupido.
– E
muitas outras frutas que tínhamos que aguardar a época própria para poder
sufocar a nossa gulodice, que não esperava o adocicar que a maturação trazia e
comia-as mesmo “de vez”, como as mangas.
– E
que fruta mais?
–
Abiu, que tinha a alegria de uma doçura sem igual e a tristeza de tão pouca
alegria no caldo pouco e caroços imensos.
– Que
delícia um abiu, e que mais?
–
Cajá-manga, que o tio Tó comparava ao casamento, ele dizia que no princípio era
meio ácido, depois a parte mais doce trazia os espinhos do caroço que eram os
filhos.
– Essa
fruta eu nem conheço, Doutor.
– É
mesmo, Miguelim, mineiro não sabe nada de cajá-manga, tão raro aparecer por
estas bandas, mas por lá dava de montão.
– Com
tanta fruta devia ser mesmo muito gostoso esse cantinho.
– Logo
que nossas pernas ganharam ares de liberdade para cobrir a estrada sozinhas, eu
e meu primo, que éramos gêmeos de famílias diferentes, partíamos para lá,
passando pela estação e seguíamos de trem até quase a entrada da estrada que
saía da Rodagem.
– Que
legal, Doutor, vocês iam deveras de trem?
– Pelo
menos em nossa imaginação, Miguelim. Seguíamos pelas linhas do trem brincando
sobre os dormentes que as pernas pequenas tinham que espicharem-se para tocar.
– E
não tinham medo de um trem chegar bem ligeiro?
– Não
havia mais trens, só os trilhos ficaram durante um longo tempo com saudade das
locomotivas que resfolegavam. Mas lembro-me de ceder os trilhos para o trem
passar, mas era muito pequeno para estar sem a companhia de meu pai, e era
muito divertido.
– E o
trem passava bem pertinho.
– Nossa
estação era fim de linha, e foi logo desativada quando os carros passaram a
mandar.
– Que
pena, Doutor, andar de trem devia ser bem legal.
– Eu
nem sabia, Miguelim, levou muito tempo para que eu subisse em um trem. Mas
lembro-me muito, de nossas fugidas para o cantinho, de um dia quando resolvemos
fazer um caminho que achávamos que era um atalho para lá chegar.
– E
ficava mais perto?
– Nem
sabíamos, mas quando estávamos por lá, víamos a estrada que levava a uma
fazenda atrás do morro, e aprendemos que subindo por aquela estrada poderíamos
nos embrenhar pelos pastos, descer o morro e chegar no vale.
– Então
era bem mais custoso.
– Mas
o espírito de aventura e vontade de desbravar nos empurrava para a novidade,
assim nesse dia não pegamos a estrada de ferro, seguimos pela rodagem em busca
da estrada que ia para aquela fazenda.
– Eu
também gostava de aventuras assim, sair pelo meu sertão em busca de lugares que
nunca antes pisaram os meus pezinhos.
– E
assim fomos subindo aquele morro e procurando nas brincadeiras maneiras novas de
fazer a estrada menos penosa. Até que chegamos onde já avistávamos o sítio, e
resolvemos entrar no pasto para descer o morro.
– E
tinha uma trilha para seguir?
– Não,
não era um caminho usado nem pelo gado. Ao chegar na cerca de arame farpado,
vimos uma novilha ali perto pastando. Como estávamos acostumados a viver no
meio daqueles bichos, nem nos abalamos, e passamos a cerca.
– Tem
que ter cuidado para não se espetar nas farpinhas.
– Estávamos
acostumados a levar cavalos no pasto e nada daquilo nos intimidava. Quando nos
vimos dentro do pasto, e após dar alguns passos, a novilha resfolegou, acho que
não gostou da nossa bravura, e avançou para nós em carreira certeira.
– Nossa,
Doutor, e que aconteceu?
– Foi
aí que o susto destravou as rédeas da nossa coragem que não sabíamos mais onde
foi ela parar. Cada um saiu correndo para um lado, deixando ao destino a
escolha do coitado que ia sofrer.
– E aí,
Doutor, estou eu aflito de susto também, quem ela escolheu?
– Ela
veio direto para cima de mim, corri um tanto e sentindo ela pertinho, joguei-me
no chão pelo menos para evitar uma cabeçada da fera.
– E ela
não te pisou?
– Não sei
de onde apareceu um moço, não o tínhamos visto, ele veio como do nada e afastou
a novilha de onde eu estava.
– Poxa,
Doutor, tive um medão por você.
– Imagine
o meu, naquele momento eu me vi pisoteado e espremido pela cabeça da besta.
– E
chifrado.
– Quando
dei-me conta que ela não me tocou, vi-a correndo para outro lado, e o moço
agitando os braços e gritando com ela.
– Que
alívio, Doutor.
– Pusemos
os dois os rabos entre as pernas e descemos o pasto sem nem agradecer ao moço por
livrar-nos do mal pior, os corações disparados e num acordo tácito de não
contar para ninguém do que havíamos passado.
– Eu ia
correr pra contar pra minha mãezinha o susto que eu tive.
– Mas nós
prezávamos nossa liberdade, melhor os sustos que perdê-la; apertos nós passávamos
em diversas ocasiões, mas depois do susto, brincar era a regra e despachávamos
para a farra.
– E tinha
muita coisa gostosa pra fazer lá?
– E como
tinha. No alto do morro havia uma mata cerrada onde gostávamos de ir brincar,
cipós correndo do alto das árvores faziam-nos virar o Tarzan e balançar sobre o
declive do morro, bem alto.
– Acho
que vocês deviam mais parecer a Chita.
–
Fazíamos mesmo muitas macacadas, e entrávamos pela mata a brincar de caçadores.
– E
enquanto vocês brincavam, a trabalheira dos primos continuava...
– Pois é,
e nem tínhamos consciência do que era preciso para ter aquela mesa farta de
biscoitos e bolos que nos enfeitavam os olhos no café da tarde.
– Quanta
gostosura no café da roça!
– Queijo,
manteiga, leite, tudo feito lá mesmo, e muito mais. E foi então que meu primo
comprou um Fordinho para poder levar suas mercadorias para a cidade, e para nós
foi mais uma alegria, nps acordes da música O Calhambeque divertíamo-nos a
valer.
– Que
legal, Doutor!
– E fomos
crescendo e outros interesses nos afastaram de lá, enquanto minha admiração
pelo trabalho dos meus primos ia também crescendo, pois passei a compreender o
esforço do trabalho feito com tanto amor!
– Poxa!
– É
tarde, Miguelim, trate de dormir. Boa noite!
– Boa
noite, Doutor, gostei muito de visitar o seu Paraíso!
-o-
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