A mancha negra
– Bom dia,
Dona Menina.
– Num sei,
num tô muito pra bom dia hoje não.
– Ara, que
danado de aperreio mais mofino é esse? Acho que nem nunca vi a comadre assim.
– Pois é,
acho que num devia ter-me alevantado hoje, melhor seria ter ficado morgada na
cama.
– Ah, é,
comadre? Tá com gana de abreviar a caminhada pro carneiro?
– Tanto faz,
já tô mesma meio descarnada.
– Virge, a
coisa tá feia mesma, precisa de urgência de uma bendição.
– Só se
fosse pra imergir num banho de água-benta.
– Cruz
credo, comadre, é o coisa ruim que tá azucrinando a senhora?
– Só pode,
Donana. Ele aprontou maldade das piores comigo, coisa que só mesmo aquela peste
arrenegada poderia pensar em cometer.
– Mas a
senhora sempre foi tão forte, tão protegida pela Virgem Santíssima, num acredito
que o coisa tenha furado as suas barreiras de fé.
– Mas num
foi comigo assim de modo direto, ele tomou ciência que eu tava assim meio
despreocupada, remansada na vida tranquila, e aproveitou pra enfiar o chifre
assim sem mais delonga no casamento da minha caçula.
– Da
Dorinha?
– É.
– E que mal
lhe pergunte, Dona Menina, as coisas num tão lá boas com o marido dela não?
– Tá nada,
tá um despropósito danado de ruim, que a minha santinha não permita que acabe
em descasamento.
– Que
triste, mas as coisas se arranjam, o tempo conserta os malfeitos.
– Já tô sem
esperança. Aquele chifrudo não tá deixando a coisa se aprumar. Veja só, em
antes os dois vinham estremecidos por causa do empréstimo que o marido fez com
o tinhoso dos apetrechos chifrudos para dar um presente pra Dorinha.
– Senhora
Dona Menina , estou desolada... desolada! E imaginar que era um casalzinho tão
apaixonado, que a gente via e pensava na beleza do amor deles que devia de durar
pra sempre.
– Então, né? É isto que mais dá desolação. Era tão lindo.
– Pois é, no
casamento deles eu fiquei tão enternecida. Tudo tão bonito, apesar da
simplicidade do casório.
– Acho que
foi ali mesmo que começou o degringolamento.
– Ara, Dona
Menina, como pode? Ali é que tudo começou do bom e do melhor.
– Nem tanto,
nem tanto. Sabe o que a Dorinha me contou noutro dia que ela tava mais triste
que dia de garoa fininha?
– E como havera
eu de saber, comadre?
– É, a gente
nem pode ter na imaginação que coisa assim aconteça, mas aquela besta do Padre Joaquim
aprontou poucas e boas com eles dois.
– Com o
casal, Dona Menina?
– E num foi,
Donana, num é à toa que tenho meus quiproquós com aquele pedaço de asno.
– Eu sei que
a senhora tem lá suas desavenças com o padre, Dona Menina, mas num pode ser
assim tão ruim, ele é um bom homem, fervoroso, cheio de boas intenções de
agradar a Deus.
– À vez eu
acho que ele agrada mais ao diabo chifrudo com o exagero de mania de impor pros
outros a sua ignorância do trato com Deus, vê se precisa tamanha falta de amor
pros modos dos fiéis, mais parece que a gente vive nos tempo da inquisição.
– Senhora
Dona Menina, ele só quer uma Igreja santa, pia e devota, a senhora não tá de
acordo que devia de ser assim mesmo?
– E quando
foi que Nosso Senhor fez desfeita com aqueles que mais precisavam dele?
– Mas o
Padre Joaquim não desfeita ninguém que respeite as leis da Santa Madre Igreja.
– E quem num
baixa o cangote pra aqueles modos de exagero, ele manda pros infernos?
– Mas a
senhora tá muito revoltada, comadre, e o quê de fato mesmo que aconteceu?
– A maldade
do fato acontecido foi que quando os dois, Dorinha e o namorado, foram lá na igreja
pra marcar a data do casório, o santarrão aprontou com eles uma aberração.
– E o que
foi essa coisa tão aberrante assim, Dona Menina?
– Ara, a
Dorinha contou pra mim, e só agora é que ela veio a me falar do acontecido, no momento
exato em que ela estava debulhada em choro; na ocasião que a coisa assucedeu ficou calada e muda.
– Poxa, Dona
Menina, solta logo isso que já estou afundada em agonia.
– Ela contou
pra mim bem assim: que ele se assentou na frente deles com a agenda da igreja, e
que começou a arengar com eles que por serem muito jovens eles iam casar em
pecado.
– Uai, e
desde quando é pecado casar jovem?
– Pois
então, ele disse, isto a Dorinha contou pra mim no meio daquele choro estropiado,
que ele disse que eles tinham o propósito desmesurado de evitar filhos, e que
isso era pecado, que a intenção deles de casar era só pra gozar dos pecados da
carne.
– Mas,
comadre, a senhora num acha isso de um assunto dos demais controvertido?
– Eu num
acho e você sabe muito bem que num aprovo essas esquisitices. Se Deus fez a
gente com uma ferramenta pra diversão, por que ele ia proibir o uso?
– Mas a
Santa Madre Igreja prega em seus princípios mais sagrados a castidade.
– E você põe
em prática tudo aquilo que ela prega?
– Bom, nesta
matéria... de quando em vez a gente acaba cometendo um pecadozinho...
– E vai no
confessionário, e pronto, tá tudo arranjado.
– Ara, se
Deus nos deu esta oportunidade de arrependimento...
– E nunca
mais peca, né?
– Bom... num é
bem assim.
– E volta no
confessionário, e pronto.
– Mas a Dona
Menina tava contando que o padre admoestou os dois.
– Pois é,
corre do assunto. Aí, no meio daquela arenga, a Dorinha falou que ele falava
aquilo tudo sem alevantar os olhos pra eles, de cabeça baixa enterrada na
agenda. Fico pensando até que era a beleza dela que incomodava ele...
– Cruz
credo, comadre, o homem é um santo.
– Santo não
causa mal pros outros.
– E que mal
foi que ele causou?
– Pois foi
depois de condenar eles pelo pecado de casar que ele disse que faria o
casamento, pois não estava livre pra negar, mas que não permitiria que os dois
pudessem receber a santa comunhão, porque os dois já estavam em pecado.
– Ai, meu
Deus, ele negou então a bênção da Igreja?
– E num foi?
– Oh, que
triste.
– Então, a
Dorinha chorava e dizia que tudo era por causa daquele urubu, que havia
condenado o casamento deles como uma coisa do diabo.
– Ah, que triste,
Dona Menina, estou pasmada!
– Pois foi
que o marido dela, que já não estava satisfeito só com ela, foi arrumar uns
chifres pra colocar na cabeça dela, e o casamento ficou de todo chamuscado.
– Mas será que
o padre teve culpa na vulgaridade do moço, Dona Menina?
– Tenho
minhas dúvidas, comadre, mas acho que bem ajudou.
– Sem a
bênção de Nosso Senhor tudo fica mais difícil, né?
– Mas é aí
que mora a minha dúvida, Donana, quem não deu a bênção foi o padre, Nosso
Senhor não se negaria.
– Ah, o
arrazoado é bom, então a culpa é só mesmo do moço, né?
– Aí também
não sei, pois não sei como é que se abre a porta do inferno.
– (Donana
faz o sinal da cruz) O Senhor nos livre e guarde.
– Pois foi
então, Donana, que ele até tirou uns dias de repouso e foi para uma aldeia
tranquila lá pros lados da Bahia pra descansar e pôr a cabeça em ordem,
flanando à beira do mar.
– E não deu
resultado, comadre?
– Até que
deu, Donana. Quando ele disse pra Dorinha que estava pra pegar o caminho de
volta, ela se alegrou de tudo, quis se enfeitar toda pra receber ele.
– Que ternura,
comadre, e como foi?
– Nem lhe
digo, Donana, pois num foi que ele disse pra ela que ia chegar de noite? Ela
foi toda ligeirinha numa loja dessas coisas bonitas dessa moçada nova, escolheu
uma camisola linda, e ficou à espera dele, toda saudosa e charmosa.
– Ah, que
alegria pra esses casalzinhos!
– Mas nem
tudo foi alegria, Donana.
– E o que
houve, comadre, está a deixar eu mais que aflita!
– Pois aí
foi que ele chegou, contou-me a Dorinha, que ela estava com a camisolinha preta
toda em esperança...
– Que lindo,
Dona Menina, que amor devia de estar!
– E aí os dois estavam numa felicidade só! Um
abraço longo, um beijo longo de paixão, e...
– E... e o que, comadre, tá se deleitando em me
agoniar?
– E quando
eles se afastaram um pouquinho, ele viu sobre os seios dela uma mancha preta enorme.
– Uma mancha
preta? E de que raios teria aparecido essa mancha preta?
– Pois a
Dorinha principiou a chorar, que não sabia o que era aquilo, que a camisola era
novinha.
– E aí,
comadre?
– Aí foi que
ele disse pra ela que aquilo num era nada, devia ser do tecido da camisola.
– E era?
– A Dorinha
tentou de todo modo replicar a mancha em outro lugar, e nada conseguiu.
– Oh, meu
Deus, o que foi então?
– Foi aí que
ela disparou no choro, pois achava que o coisa ruim estava perseguindo-os,
que queria desdourar ela aos olhos do marido.
– Ah, meu
Deus, mas por que ela pensava assim?
– Por tudo
que eles já tinham passado, tudo atrapalhado na vida deles. Ela não se
conformava, e culpava o padre de todo seu infortúnio.
– E não se
descobriu de onde surgiu a mancha?
– Não, eles
não descobriram. E ela foi tomar banho para tirar a mancha, e o encanto da
noite estava quebrado.
– Poxa, que
coisa mais triste! Mas eu bem sei que a comadre não acredita no maligno.
– E num é,
eu sempre achei que o chifrudo é só uma sombra que mora dentro de cada um.
– E então,
como a comadre explica que a mancha apareceu?
– Fico a
cismar. Num acredito no cujo, mas à vez vejo o efeito das suas malignidades.
-o-
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